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domingo, 25 de março de 2018

Troféu sem prêmio e sem voz?



A julgar pelos comentários virtuais pós festim, a classe teatreira de Porto Alegre teve a cerimônia de Açorianos e Tibicuera que merecia.

Há alguns anos, quando os grupos que participavam do moribundo projeto Usina das Artes resolveram usar a premiação – na época transmitida ao vivo em canal de televisão local - como espaço público de manifestação não pensaram que os premiados ficariam tão inebriados pela deferência que ‘esqueceriam’ de levantar questões tão importantes quanto o risco que se corria da extinção do projeto. Agora praticamente não existe, mas quase ninguém parece incomodado.

Premiado com troféu, mas calado pela ausência providencial de microfone, apesar da estrutura montada e das performances contratadas pela Secretaria, nem mesmo o sumiço da verba dos módicos prêmios às ‘principais’ categorias de premiação é motivo de indignação.

Ouça seu nome e passe no balcão para recebeu seu brinquedo novo. Essa é a nova modalidade de premiação que deveria ser o reconhecimento pela excelência do trabalho artístico. Criado devido à intensa movimentação teatral e pelo aumento progressivo do público de teatro em 1977, os Troféus Açorianos e Tibicuera hoje são figuras patéticas que envergonhariam Vasco Prado. 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

“todo poder emana do povo e em seu nome será exercido"

Fica claro que autoridades eleitas e aquelas por elas empossadas são espelho de uma sociedade.
Ao receber olhares debochados quando retirava galhos das calçadas, lembrei o que diferencia o cidadão do mero habitante. Lembrei o que nos diferencia dos japoneses, por exemplo. “Como exigir dos outros, qualidades que ainda não temos”?

No Japão a população se mobiliza para auxiliar na limpeza, reorganização dos espaços públicos a cada evento climático de grandes proporções. E esta sociedade elege seus representantes e cobra deles o planejamento, o treinamento de equipes técnicas e da população para agir com tranquilidade e de forma eficaz com equilíbrio nas contas públicas.

No Brasil, a população acredita que ao delegar poder a uma pessoa que ela mal conhece, fica isenta de qualquer responsabilidade, quando é justamente o contrário. Uma autoridade eleita ou nomeada é tão povo quanto todos os outros. É mais ou menos como o síndico de um condomínio. O patrimônio é de todos. E os condôminos fiscalizam junto seu trabalho.

Obviamente que deve-se ter o cuidado de não mexer em pontos ou materiais que exijam conhecimento técnico, como árvores caídas sobre fios da rede elétrica. Mas ajudar na remoção e limpeza do que for possível, agiliza a liberação de vias públicas, facilitando o acesso das equipes da prefeitura e da distribuidora de energia elétrica.

De outro lado, pelas ações que pudemos ver pela cidade e entrevistas que ouvimos de autoridades e empresas diretamente envolvidas como CEEE e DMAE, fica clara a necessidade de um planejamento mais competente dos responsáveis pelo gabinete especial montado para assistir a população em eventos cada vez mais frequentes de catástrofes climáticas. As equipes da prefeitura não podem simplesmente ‘adivinhar’ onde há necessidade de remoção de entulhos, daí a importância da colaboração dos cidadãos, mas principalmente da existência de “seres pensantes” que possam avaliar previamente os locais afetados para não vermos equipes da prefeitura limpando internamente os parques quando diversas ruas e avenidas continuam bloqueadas. Para isso é necessário contar com o bom senso geral de evitar situações de risco, como caminhar sob árvores em parques. 

Entendido está que todas estas equipes da prefeitura precisam ter equipamento e pessoal qualificado para mover entulho ligado à fiação elétrica, investimentos de grande porte precisam ser feitos e a legislação ser avaliada sob ponto de vista técnico. Alterações que permitam, por exemplo, que técnicos competentes da distribuidora de energia possam realizar o corte de árvores e galhos que estejam totalmente derrubadas. Precisamos avaliar parcerias e planejar gradativamente a instalação subterrânea da rede elétrica pois mesmo com um alto custo inicial a economia seria efetiva a médio prazo. É necessário investimento na pesquisa da adaptação de geradores que funcionem à base de água para autossuficiência da coleta, tratamento e distribuição da água em Porto Alegre.


É nossa responsabilidade oferecer sugestões e auxiliar o planejamento debatendo questões públicas de forma coerente, abdicando da postura inócua de reclamar em redes sociais ou veículos de comunicação.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

PENSAMENTOS E ESCLARECIMENTOS que me parecem pertinentes neste momento de exceção que estamos vivendo.

O bairro ARQUIPÉLAGO de Porto Alegre é formado por 16 ilhas no delta do Rio Jacuí. Informação desconhecida por uma grande parte da população de Porto Alegre, assim como o fato de que há muitas famílias habitando essas ilhas e, diferente do que muitos pensam, não são todos de baixa renda. Há desde casebres simples a mansões de mais de 8 milhões de reais com lanchas de passeio nos fundos.

As enchentes causadas especialmente pelo excesso de chuvas atingiram a todos, indiscriminadamente e a este bairro, mais que a maioria. Mas, ao contrário daqueles com ótimas condições financeiras, famílias de baixa renda – além de limites inimagináveis a nós, das “áreas mais secas” da cidade – ficam em casas alagadas para evitar que sejam saqueadas se forem para um dos escassos lugares para desabrigados, em meio a outras tantas famílias. Os pertences ainda secos, objetos como eletrodomésticos – se tiverem tempo – são erguidos sobre móveis para evitar o prejuízo.

O deficiente sistema de transporte fluvial e rodoviário que serve aos moradores da região foi obviamente interrompido. Raríssimos veículos existentes nessas regiões mais humildes podem ser usados – alguns estão enguiçados dentro d’água, outros que saíram não podem circular dentro dela. Assim, é óbvia a dificuldade para deslocamento em busca de água potável, comida, atendimento médico, medicação, roupas, calçados, fraldas, cobertas, colchões.

 Desconhecidas da maioria da população e cotidianamente ignorados pelo poder público,  essas pessoas (idosos, adultos, crianças – inclusive recém-nascidas) continuam em casa ou acampadas à beira do asfalto das estradas.

Assim como em diversos lugares do Estado, centenas de voluntários em Porto Alegre dedicam todo o tempo e recursos disponíveis para comprar e coletar doações. Grupos de voluntários, ONGs e instituições diversas organizam mutirões para levar e distribuir doações a famílias atingidas. Esses mutirões incluem também confecção e distribuição de refeições de forma comunitária pois muitos não podem usar fogão ou geladeira pelo alagamento e/ou falta de energia elétrica.

Além de tudo isso, o risco de contaminação por leptospirose, tétano, hepatite é altíssimo e muitas estão com feridas nos pés em razão da umidade constante.

Diante de tal quadro parece-me ilógico que alguém ainda tenha tempo para fazer “caça às bruxas”. A UNIÃO É IMPERATIVA, a participação de todos urgente!  Assim como outros tantos grupos, a Associação Movimento do Bem – AMOBEM - CNPJ - 03.918.950/0001-33, à qual me uni como forma mais efetiva de ajudar pois sozinha conseguia muito pouco, fará novo mutirão no sábado dia 24 de outubro. Toda, absolutamente toda ajuda é importante. Voluntários da área médica, coletores espalhados pela cidade, empresários, pessoas de toda parte são necessárias agora. É de VIDA que estamos falando aqui.

Uma das coisas mais bacanas que observei nesses dias foi ver a união de pessoas humildes que chegavam de carona para ajudar "apenas" com sua força de trabalho aos que traziam pranchas amarradas aos carros para transporte de doações e os que chegavam em grandes utilitários, carregando reboques com mantimentos, jet-skys e todo tipo de meio de transporte capaz de enfrentar os alagamentos.

Não há doação pequena demais!
Encontra uma forma de ajudar no teu condomínio, no teu bairro, ollha as pessoas que trabalham contigo e vê quem precisa de ajuda e quem pode ajudar! As pessoas podem ser surpreendentes!

Vem junto ajudar, mesmo que sendo avisando que podemos buscar um sabonete!


VEM!

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

PORTO TRISTE.

Há muito tempo esta cidade deixou de ser alegre. Alguns raros momentos de sorrisos, no máximo, temos agora.
Violência galopante, crise generalizada de valores éticos, morais e financeiros. Educação e cultura – base da formação do cidadão – amargamente destroçadas por interesses diversos dos da maioria da população. Escolas abandonadas, professores mal remunerados e agredidos de todas as formas por alunos, seus familiares e ‘autoridades’. Salas de teatro fechadas, virando ruínas enquanto seus antigos equipamentos são espalhados conforme necessidade de uma gestão municipal caótica. Artistas sem salas e impedidos de trabalharem nas ruas, apesar da constituição federal.
Destruição, descaso, descrédito, desânimo.
Ruas e avenidas selvagemente escancaradas para que mais carros as ocupem ao invés de humanizá-las para recuperar a dignidade dos seres humanos que aqui vivem.
Patrimônio histórico e cultural demolido à luz do dia com o aval (pago?) de quem deveria protegê-lo.

Tudo nesta cidade grita que as pessoas devem se enclausurar mais, individualizando cada vez mais a vida, impedindo o intercâmbio, a possibilidade de uma evolução real.

Não há mais onde colocar o lixo, joga-se no chão.
Os “outros” fazem, por que eu não?
Os contêineres que deveriam facilitar a coleta de lixo, hoje são motivo de mais lixo nas ruas – pois pessoas remexem nele a procura de COMIDA! – e atravancamento do trânsito, pois os caminhões ocupam, parados, o mesmo espaço por vários minutos. Contêineres que deveriam ocupar vagas de estacionamento, muitas e muitas vezes ocupam estreitas calçadas obrigando pedestres a descer à via asfaltada, onde à mercê de motoristas imprudentes ainda ouvem xingamentos.

“As pessoas não usam as árvores” bradou o prefeito que certamente nunca foi ao ainda existente Jardim Botânico ou a um dos parques da cidade para sentar com o filho à sombra. Arrancam-nas como erva daninha.

Centro cultural? Para quem? Vamos esvaziar a Usina do Gasômetro e seu entorno para que possa servir de ancoradouro a quem tem poder aquisitivo para ter um barco e bancar bares e restaurantes exclusivos na orla – com espaço interno para acervo de empresas privadas, totalmente fora da realidade da população, como o elefante branco da Fundação Iberê Camargo onde só chega quem tem carro ou usa taxi. Quer ir a pé ou de transporte público? Boa sorte: a parada é longe e não há como atravessar em segurança.

Teatro de Câmara:fechado
Sala Carlos Carvalho: fechada
Teatro do IPE: fechado
Renascença: sucateado, já incendiou com público dentro, torna-se um forno no verão ou, com um gigante metálico chamado de ar condicionado é preciso sentar na frente para escutar o espetáculo; Alvaro Moreyra: boa sorte em não afundar a perna no piso ou receber o teto na cabeça. Sem falar nos assaltos dentro e fora do Centro Municipal de Cultura.
Espaços privados lutam para não morrer à mingua pois as empresas usam seus recursos como investimento e não patrocínio, amparadas por uma legislação que só legitima o status quo.

MATA-SE por uma bolsa com 20 reais e amedrontadas, as pessoas deixam de procurar diversão, entretenimento e arte fora de casa.

As mesmas avenidas foram refeitas, fazendo com que obras que seriam “para a Copa do Mundo”, continuem depauperando cofres públicos (aumentemos os impostos!) e sob o comando de incompetentes que refazem as obras com os mesmos erros.

POSTOS DE SAÚDE sem estrutura onde profissionais despreparados estão à mercê de pessoas armadas exigindo seus direitos, de população cansada de descaso que vomita sobre eles sua raiva e impotência – sentida por eles também.

CAOS!
E as pessoas continuarão votando? Continuarão acreditando que elas não têm nenhuma ligação com isso tudo?


TRISTEZA.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

querem acabar comigo, mas isso eu não vou deixar

        Carta aberta à população e classe artística atuante na cidade de Porto Alegre/RS.
                            
       O cidadão que acompanha e verifica notícias de fontes variadas, que  acompanha, dentro do possível, o andamento de projetos na câmara municipal, congresso (câmara e senado) está mais apto que os demais a votar com consciência e dispensa propaganda eleitoral. Pouco esforço é necessário pra entendermos por que no Brasil a Cultura e a Educação - que andam juntas são as pastas com menor orçamento em prefeituras, estados e na união. Onde as pessoas são capazes de pensar e consequentemente tomar decisões, votar de acordo com seus conceitos e ideais elas também se tornam donas de seu próprio futuro enquanto cidadãs e muito menos sujeitas a serem roubadas e enganadas em estelionatos eleitorais.

   Cultura é tudo. É como se faz negócios em um lugar, como ocorrem os partos, como as pessoas se vestem, como elas falam o mesmo idioma em qualquer ponto cardeal, como se relacionam socialmente e, naturalmente, é como se produz todo tipo de arte.

   A partir dessa ideia, façamos um exercício pra entender o que acontece hoje na cidade de Porto Alegre. Sugiro ao público e aos artistas que se dispuserem a ler esta carta que tracem um paralelo com qualquer espaço público que conheçam, em que tenham o hábito de buscar cultura ou nele trabalhar e vejam depois se está muito longe da realidade que usarei como exemplo agora. Talvez algumas pessoas considerem longa, porém a forma de fazer entender a realidade passa pelo entendimento da história.

    A Usina do Gasômetro foi desativada – como geradora de energia – em 1974. Permaneceu fechada durante 17 anos sem que houvesse qualquer interesse efetivo de uso público ou privado do local.
   Em 1989 o prédio foi indicado como Espaço Cultural do Trabalho pela Prefeitura e, a partir de 1991, seus 18.000m² foram reativados com a formação do Centro Cultural Usina do Gasômetro. Como é comum mundo afora, espaços abandonados geralmente são resgatados por artistas para trazer lazer, informação, cultura.
   
    É o maior espaço cultural da cidade de Porto Alegre e é, provavelmente, o mais 
   democrático também. Já ocuparam espaços na Usina diversas coordenações
   da Secretaria Municipal de Cultura e diferentes projetos aos poucos ddesarticulados. Pra quem não sabe, nela existem os seguintes espaços.

   Térreo
  - espaços para exposições (Galeria Iberê Camargo, Galeria dos Arcos)
  - saguão onde são feitas exposições, feiras e eventos variados
  - Memorial da usina
  - Usina do Papel, espaço para pensar a reciclagem, produção, consumo e descarte de papel e oficinas.

   Segundo andar
  - espaço para eventos, exposições, feiras,  apresentações artísticas.
  - espaço para café com terraço
  - prometida para entrar em funcionamento em 2008 de acordo com o site da
    PMPA (Prefeitura Municipal de Porto Alegre) está a Sala Elis Regina, que ddeveria funcionar como um bem organizado teatro. Foram desalojados grupos  dentro da usina justamente para criar um novo espaço teatral que na prática não funciona e teve algumas poucas obras feitas por pessoas que, penso eu, nunca entraram nos bastidores de um teatro pois não entendem as necessidades técnicas para um espaço teatral. O local onde trabalhava um grupo e deveria ser camarim da sala, é hoje apenas um depósito.

    Terceiro andar
   -  Sala P. F. Gastal, primeira sala municipal de cinema
   - coordenação de cinema, fotografia e vídeo
   - café na entrada do cinema
   - havia outras instalações e projetos

   Quarto andar
   - terraço grande nos fundos, com vista pro Guaíba: sempre interditado para manutenção. A verdade é que essa manutenção nunca ocorre e ele está tão danificado que parte do piso cedeu e há riscos para o público.
   - pequeno terraço frontal
   - salas de espetáculos e trabalho continuado de grupos de artes cênicas
   - Sala de Capacitação digital com cursos de informática para todas as idades

    Quinto andar
   - salas ocupadas por grupos
   - salas de multiuso
   - Galeria Lunara, para exposição de fotografias

    Sexto andar
    A área é utilizada, entre outros setores, pelo Núcleo de Serviços Gerais e pelas coordenações do Carnaval, das Manifestações Populares, Setor de Mostras e há também uma sala para a Banda Municipal cujo espaço, por direito, deveria ser no Auditório Araújo Viana, na prática hoje, privatizado.

      A Usina apresenta ainda um grande espaço externo, com estacionamento,  local para shows, feiras, eventos e o Bar Chaminé Usina.
   
     Saliento, entre outros, dois projetos: Usina das Artes e Usina da Educação. 
    
     Usina das Artes
     Sendo talvez o único projeto no país neste formato que reconhece e   estimula o trabalho continuado, proporciona espaço físico e pequena ajuda de custo mensal para desenvolvimento e pesquisa de linguagem em artes, além de apresentações artísticas, oficinas e dezenas de atividades em teatro, dança, circo, música, capoeira, atividades para terceira idade, mágica, bonecos, cultura italiana, consciência ambiental – gratuitas ou com preços populares e acessíveis.
    Existe desde 2005 e tornou-se lei municipal em 2009. Entretanto, os mais de 30 grupos atualmente no Usina das Artes - inclusive grupos de Canoas e Viamão - todo ano vêem seu trabalho ameaçado com a possibilidade de o projeto ser encerrado com a notícia de que novo edital não será lançado para ocupação.
   Cada grupo apresenta projeto para o período seguinte que é avaliado por integrantes da SMC. Alguns grupos estão lá desde o início do projeto e compartilham os espaços destinados ao Usina das Artes com dezenas de  outros grupos convidados. Já participaram mais de 80 diferentes companhias e o público estimado desde 2005 supera o número de 3 milhões de pessoas.
   Muitos grupos e trabalhos ali desenvolvidos são reconhecidos e premiados    nacional e internacionalmente, comprovando a importância do desenvolvimento 
   artístico continuado da Usina.  
   Usina da Educação
   Realizado entre 2010 e 2012, o Projeto Usina da Educação em parceria com a Secretaria Municipal de Educação (SMED) e Fundação de Esporte e Cultura do Sport Club Internacional (que pagava os cachês dos  artistas/monitores/professores envolvidos) ofereceu em turno inverso às aulas a alunos da rede pública municipal de ensino, atividades diversas como oficinas de arte com diversos participantes do Projeto Usina das Artes, acompanhamento em atividades externas e chegou ao fim por solicitação da SMC, cuja responsabilidade era o local para que acontecesse.

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    Todo o movimento cultural, artístico e educacional foi o principal fator de revitalização do prédio da Usina do Gasômetro e arredores, especialmente a orla do Guaíba. A comunidade participou na escolha das cores com que o prédio seria pintado após uma reforma, os barcos passaram a realizar mais passeios e com mais procura do que até então.
     A parceria com Bienal do Mercosul, Itaú Cultural, SESI e tantas outras, proporcionou à população grandes exposições de diferentes temas e origens. A recepção de feiras e eventos como Fórum Social Temático, Feira da Biodiversidade e Feira da Vinhos aproximou do espaço eminentemente artístico a cultura de negócios, debates sociais e políticos de suma importância na formação do cidadão, tanto quanto apresentações internas e externas no espaço da Usina.

    No entanto – e agora chegamos ao exercício mencionado no princípio, visto que toda área do cais do porto foi efetivamente perdida para a iniciativa privada no intuito de fazer do espaço (já ocupado pela Bienal de Artes, pela Feira do Livro e pela produção cinematográfica gaúcha) um local pejorativamente elitizado, visando apenas a construção de novos centros de compras onde talvez pessoas vestidas de maneira simples sejam impedidas de entrar por não apresentarem condições de consumo, podemos perceber discretos mecanismos de depreciação da Usina do Gasômetro para convencer a população de que o melhor é ceder o espaço à mesma iniciativa privada.
    Acompanhe o raciocínio.

    Acesso
    A retirada de árvores que traziam um pouco mais de sombra e frescor ao entorno da usina foi rápida, já as tais obras de alargamento...
Cada vez mais difícil chegar ao local com transporte público. Grosso modo é necessário tomar duas conduções para se chegar lá. Passam linhas da região metropolitana e vindo dos bairros há uma linha de ônibus da Zona sul (188-Assunção) uma do Menino Deus (178-Praia de Belas) e a linha que desce boa parte da Av. Protásio Alves (492 Petrópolis Sesc) passando por diversos bairros (necessária inclusive por quem precisa chegar à Cidade Baixa (Teatro de Câmara), Centro Administrativo do Estado, Colégio Parobé, DAER, IPE, TJ e Forum, Receita, Câmara Municipal e tudo que está na região, sempre foi uma das mais demoradas (frequência baixa? poucos carros?) cerca de 20 minutos. Agora demora até cerca de 30 minutos de segunda a sexta-feira. Sábado o intervalo pode chegar próximo a uma hora e no domingo ela não existe, sua rota é unida à linha 493 Jardim YPU e só pra ter certeza de que não existia, cheguei a esperar mais de 1 hora e 30 minutos, mas o intervalo regular deve ser um pouco menor, quero crer. Há uma linha circular que acaba em si mesma, no centro apenas e passa pela frente do Museu do Trabalho ali na Andradas, mesmo trecho por onde passam duas linhas circulares mais centrais. À noite em frente à usina, vindo do centro em direção aos bairros (depois fazendo a volta circular) a linha 'Balada Segura', mas que poucas pessoas sabem que além dos Bares, ela passa na frente da usina do Gasômetro ou seja: há como sair de lá depois, pois ela passa a cada 30 minutos, mas apenas a partir de 22h até 4h30.
Lotação...? Aeromóvel na porta (ah, não tem verba pra transporte 'alternativo') Trensurb?

    Limpeza e segurança
    Ao lado da Usina havia algumas edificações antigas onde eu mesma pude ter aulas de formação profissional direcionadas a atores. Com o plano de ocupação do cais por empresários, estes locais dariam um ar “pobre e sujo” ao empreendimento e misteriosamente, sofreram um incêndio.
    Mesmo com a capatazia do DMLU ao lado, assim como boa parte da cidade  que perdeu suas lixeiras de rua, a orla foi sendo esvaziada de maneira lenta, para que ninguém tivesse onde colocar lixo. Devido ao fato de muitas pessoas terem preguiça de carregar latas de bebidas, papéis e outros detritos, eles são deixados pelo chão na região, dando argumento aos defensores da privatização.
    O mesmo se dá internamente na Usina. Quem costuma entrar lá sabe que
    não há mais as pequenas lixeiras nos andares e mesmo com os grupos   limpando as salas que ocupam e removendo algum lixo dos andares, o
    público deixa copos e latas nos cantinhos da construção. As lixeiras foram
    diminuindo até sumirem totalmente.
    Há apenas uma do lado de fora, junto ao semáforo em frente da entrada
    principal e as lixeiras dos vendedores ambulantes da orla. A limpeza e manutenção das salas são feitas pelos próprios grupos.

    Qual foi a última vez em que alguém viu policiamento cotidiano na região? A partir de 2010 não lembro de ter visto a BM por ali. O efetivo da Guarda  Municipal no prédio diminuiu de tal forma que há domingo – dia de maior movimento – em que os dois (sim DOIS!) guardas presentes decidem, por conta própria (?), fechar as portas do prédio impedindo a entrada do público com a justificativa de que é impossível fazer a vigilância. Junte-se a isso os grupos artísticos com agenda marcada, com cenários e artistas prontos, esperando um público impedido de entrar.
    Argumentos de quem quer destruir o centro cultural: a população e os grupos não sabem cuidar, está sujo, não tem segurança/policiamento (não posso deixar meu carro lá) e de qualquer maneira, não há público.

    Equipamentos
    Apesar de ser um ‘aparelho’ da Secretaria Municipal de Cultura (da Prefeitura, portanto), os poucos equipamentos de som, luz e vídeo disponíveis estão sucateados pelos anos de uso, por mais que funcionários e grupos tentem fazer a melhor manutenção possível. Recentemente a Bienal ocupou espaços na Usina e deixou alguns consertos e melhorias para parte do retorno previsto. Mas também “emparedou” duas salas de teatro que ficaram escondidas por uma exposição e mesmo depois da Bienal, lá permaneceram, aparentemente, a pedido da SMC.

   O terraço dos fundos (maior) está sempre interditado “para manutenção”, como citado anteriormente.

    A maior parte do local não tem qualquer ar condicionado, ventilador ou refrigeração. Calor e frio extremos levam desconforto para o público que ‘ousa’ ir até lá assistir algum espetáculo.

     Privatização
    Assim como o Auditório Araújo Viana, na prática, é hoje um espaço privado  com apresentações apenas para quem possa pagar altos valores de ingresso, há quem defenda a privatização da usina. Já que as pessoas que comandam espaços como o Multipalco (que já engoliu milhões de reais e não fica pronto nunca) dizem claramente que o Theatro São Pedro não é pra qualquer um, querem mais espaços diferenciados e fazem todo esforço pra que isso aconteça.
     Ao atual senhor secretário municipal de cultura – conhecido no meio cultural pelo desmantelamento dos espaços e projetos por onde passa, coube uma pasta sem muitos recursos financeiros de acordo com os conchavos políticos e partidários a que se submete por interesses que não nos dizem respeito mas certamente não incluem a defesa da cultura e da educação no estado e no município, se analisarmos o que está acontecendo em Porto Alegre.
   Com seu constante sorriso dissimulado através do qual se percebe que finge  receber com atenção quem o procura em seu gabinete climatizado,  provavelmente pensa na ‘chatice’ de ter que estar ali por obrigação da  incumbência que recebeu. É já velho conhecido do meio cultural desde sua passagem pela SEDAC e outros setores em que fez o que sabe fazer melhor: destruir todos os projetos que pareçam levar à população cultura e educação.
    Perversamente, nada muda após encontros da classe manifestante na busca por seus direitos.
    Diz o ditado: a necessidade é a mãe da criatividade.  Se a Prefeitura e SMC dizem não ter mais recursos para manter um espaço com a Usina do Gasômetro, por que não apoiaram e ajudaram a planejar o projeto de fazer do Centro Cultural uma fundação?
    Como esperar algo de quem teve a ideia de alardear publicamente um  suposto aumento de recursos para a cultura em evento público onde estava o prefeito, sabendo que este tipo de aumento depende de um planejamento, discussões intermináveis, escalonamento dos recursos retirando de outras secretarias dinheiro do qual não abrirão mão? Sabendo que, na verdade, já estava previsto mais um corte no orçamento? Cartada para uma pressão pública, dirão alguns. Demagogia pura, digo eu.
    
    Episódio recente

    Como participante do Projeto Usina das Artes, o grupo como qual trabalho deve, como os demais, entregar sua programação com antecedência e desde novembro de 2013 tínhamos agenda de apresentações integrando a programação do Festival Porto Verão Alegre para 28, 29 e 30 de janeiro.
    Como é de conhecimento público, os aparelhos de ar condicionado dos teatros municipais (além de toda deficiência de som e luz) costumam não funcionar no verão. Sendo o calor nesta época forte como sabemos, chega a ser insalubre receber o público que paga ingresso em total desconforto.
    A sala minúscula ocupada por nós e grupos convidados tem espaço para, com cenário, receber no máximo 30 espectadores. Não tem camarim, banheiro, ventilador. Mas estamos felizes em ter um local onde guardar nossos poucos pertences de figurino e cenário sempre reciclados e mantidos para os trabalhos de repertório e novos e nesta época fazemos reuniões e ensaios no corredor e no terraço, por causa do calor.
    Em janeiro de 2013 apresentamos a mesma peça prevista para 2014 no terraço frontal do 4º andar, como forma de minimizar os efeitos do calor ao público e experimentar um novo espaço. Apesar de um pouco diferente da concepção original (usamos velas, sombras, etc), a essência do espetáculo  estava ali mas a dificuldade em montar e desmontar todos os dias equipamentos e cenário contribuiu para que neste 2014 pedíssemos emprestado uma sala do quinto andar, com ar condicionado. Algumas semanas antes, soube-se que o equipamento estava estragado e que a empresa licitada ainda não havia ido até a Usina realizar o conserto. Como não foi até hoje, apesar de um contrato com a prefeitura.
    Quatro dias antes da estréia soubemos que o leilão de camarotes do carnaval da cidade seria realizado na usina do Gasômetro exatamente no dia de nossa estréia. Pra quem não conhece, imagine um carnaval em forma de leilão, com caixas de som com música alta, centenas de pessoas gritando lances. Alguém dentro da secretaria conhecia a agenda do centro cultural, certo? FICA UMA DÚVIDA: pra que mais serve o sambódromo que é utilizado apenas uma vez ao ano?
Já que moradores da zona norte tem tanta carência de espaços culturais e dificuldade de acesso aos já existentes, por que o tal espaço prometido à APLUB não é feito junto ao Sambódromo, revitalizando o local e levando à população da região possibilidade de arte e cultura perto de casa?
    
    Aguardamos até a véspera de nossa estréia por uma solução do ar condicionado e lembramos que havíamos realizado no terraço, sendo esta uma alternativa ao cancelamento. Na manhã desse dia (véspera) recebemos telefonema de técnicos da prefeitura que trabalham na usina com a informação de que não fariam a instalação de equipamentos no terraço.
     Imaginem nosso constrangimento em ter que cancelar com ingressos vendidos antecipadamente, pra dizer o mínimo!
 
     Ligamos para a secretaria adjunta de cultura que nos informou que o ar condicionado do teatro Renascença seria consertado naquele dia e ia TENTAR mandar pra lá os ventiladores alugados. Procurada, a coordenação de artes cênicas informou em seguida que isso não ocorreria, pois um possível conserto apenas faria funcionar 50% do aparelho.
    Observação: de tanto calor, os equipamentos de som e luz deixam de funcionar no meio do espetáculo no Renascença.

     Procuramos a chefia dos técnicos para conseguir pelo menos, aparelhagem de som e projeção, pois faríamos a luz com lanternas, mas faltando 24h para a estréia, ainda não sabíamos se teríamos este equipamento.

    Graças ao dono de uma empresa de equipamentos de luz e mais um técnico independente que voluntariamente se ofereceu para nos ajudar, conseguimos algumas lâmpadas conhecidas como “ribalta” para ter alguma luz além da iluminação externa do terraço. Este equipamento chegou lá poucas horas antes da estréia, foi montado com o cenário por duas pessoas do grupo (sendo uma delas atriz que deveria estar em cena em seguida) e este técnico debaixo de sol escaldante de 45ºC. E nós olhando os ventiladores da sala de capacitação digital ligados desde a terça-feira (ainda estão) com a sala vazia...
    O equipamento de som e projeção foi montado pelos técnicos da prefeitura que, cada um em seu dia de plantão, foram muito solícitos.
    Como a tentativa de nos fazer desistir não para por aí, ao solicitar que fossem abertos os banheiros do quarto andar, recebemos a resposta de que não havia água na Usina e não seriam abertos os banheiros. O grande mistério fica por conta de haver água em todos os outros andares. Contando mais uma vez com a pena dos técnicos, um deles nos ofereceu a chave do cinema a fim que pudéssemos usar o banheiro junto ao café do terceiro andar, pra que não precisássemos atravessar o saguão do térreo com centenas de pessoas em meio ao tal leilão. Afinal, é minimamente recomendável um local próximo do espaço teatral onde os artistas e público possam urinar e lavar as mãos. Além disso, é um local com espelho também – já que não temos camarim – que nos serve para caracterização (maquiagem, cabelo, figurino) dos personagens.
    Natural e infelizmente, estamos acostumados a maquiar com espelhinhos de 10 x 10 cm na sala, pra não nos chamarem de luxentos que só se maquiam em banheiros e/ou camarins.

    Programar leilão de camarotes do carnaval no dia em que há apresentação teatral na Usina, recusar a abertura de banheiros no andar em que ela acontece não é apenas descaso com a cultura. É um tiro silencioso no direito do público de assistir o que ele pretendia. É uma afronta à cidade, à população que paga suas contas, que paga impostos e vai ao teatro em busca de cultura, lazer, pagando ingresso pra que nós, artistas, possamos também pagar nossos impostos.

    No primeiro dia, caiu uma pancada de chuva e tivemos que ensacar e cobrir equipamentos e lâmpadas clamando aos céus misericórdia na hora de fazer a peça. No segundo dia, um vendaval levantava cadeiras e empurrava atores e cenário. Assim mesmo, seguimos, rezando durante toda a apresentação.
    No terceiro e último dia – esta quinta-feira 30 de janeiro, o grande vendaval e chuva de granizo levantaram pilhas de cadeiras, fizeram voar praticável que ao cair se desmanchou em pedaços – com risco de cair do terraço em alguém na rua. Nas salas do 4º andar, uma delas a sala que  ocupamos, há um teto interno de vidro e uma claraboia. Ouvimos um estouro e por sorte não havia ninguém na sala pois um dos vidros do teto estourou com o vento caindo sobre outros vidros, não no interior da sala. Ficamos no corredor até que a tempestade cedesse esperando faltar luz. Tentamos ainda montar o espetáculo e às 20h começamos a montagem pra depois nos vestirmos e maquiarmos para a apresentação das 21h.
    infelizmente o clima não ajudou desta vez e, debaixo de chuva, tivemos que recolher todo o equipamento e cenário.
    Com tudo isso, fica como recado o título tão apropriado de nossa peça, a partir de uma música de Roberto Carlos.
   “QUEREM ACABAR COMIGO”  mas isso eu não vou deixar, ele canta.

    JURO QUE NÃO, COMPLETO EU.



             Silvana da Costa Alves, portoalegrense nascida artista.

sábado, 24 de agosto de 2013

PERGUNTAS QUE NÃO QUEREM CALAR NA CULTURA DE PORTO ALEGRE.

Não são apenas as árvores que os desgovernos municipal e estadual derrubam (lembram que as respectivas secretarias do Meio Ambiente eram verdadeiros celeiros de falcatruas?)

-  O que é feito do antigo cinema Capitólio, sumidouro de verbas públicas há tantos anos? http://www.capitolio.org.br/ No papel, digo, no site, tudo parece lindo. As obras começaram em 2004, pararam em 2006 e a nova data está marcada pra março de 2014, seis anos de atraso.

- Como está a situação do Centro Cenotécnico do Estado, após tanta batalha pra não perdermos o espaço? Como está a situação do sítio arqueológico no local e as as tais obras importantíssimas pro tal evento esportivo que vai durar menos de 2 semanas na cidade?

- Se desde 1925 Porto Alegre tem Banda Municipal com músicos concursados, mesmo com problemas (ver http://www2.portoalegre.rs.gov.br/smc/default.php?p_secao=116 e http://www.sul21.com.br/jornal/2013/04/musicos-denunciam-irregularidades-na-banda-municipal-de-porto-alegre/ ),
já não tá na hora de
1) ela ter um espaço próprio e parar de usar espaço de outras instituições e projetos?
1-A) resolver a questão ANTIGA sobre a Coordenação de Música existir de direito e não apenas de FATO, já que tem, inclusive uma banda?
2) Se, DE FATO, o Auditório Araújo Vianna ainda é aparelho de Prefeitura, apesar de na prática estar privatizado, por que a Banda não tem novamente espaço pra ensaios e guarda de equipamentos lá?
3) o município ter uma Companhia de Artes Cênicas com núcleo de teatro e dança com artistas também concursados? [ hahahahahaha]

Apenas algumas indagações, entre tantas...

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Vamos botar uma lupa?

As redes sociais têm sido uma ferramenta mais ágil e com visão ampliada do que acontece no Brasil há décadas e tem ficado pior.
Mas acho importante colocar uma lupa e olhar o umbigo de Porto Alegre que muita gente tem tentado esconder, quando a população grita não desde maio de 2013, mas desde MUITO ANTES!!

Vamos pensar: algumas obras chamadas de essenciais são "essenciais" pra quem? Se eram tão essenciais antes, por que só agora conseguiram crédito (veja bem, crédito significa que é empréstimo a ser pago com altos juros) pra serem realizadas?

Alguém me explica por que ruas e avenidas são mais importantes que hospitais, escolas, estrutura e profissionais pra eles.
Ah, tem mais carro na rua? Não será por que o governo federal deu isenção de impostos pra indústria estrangeira que produz carros em território nacional - levando seu lucro pra fora - pra elevar a venda dos mesmos quando poderia usar esse recurso pra melhorar o transporte público (e o eco sustentável) e com isso DIMINUIR o número de carros nas ruas? Ah! Mas aí não há aumento de consumo de combustíveis e é preciso consumir petróleo... Uma graaaande roda.

Quando as pessoas ouvem falar de famílias que perderão suas casas por obras que a FIFA determinou dentro do país serem prioritárias (pra quem e com que dinheiro?) já fizeram o exercício de imaginar perder o belo apartamento ou casa onde vivem? Onde estão suas memórias, seu pertences, SUA FAMÍLIA?
FAÇA ESTE EXERCÍCIO, AGORA!
Horrível, né?

Veja, em Porto Alegre, alguns destes casos: 

Detalhe: aos desalojados resta escolher entre:
- um "aluguel social" pago pela prefeitura (NÓS) de R$500 (hahahaha)
- alojamento (o_o !) em "casas de passagem" espécie de abrigo provisório (sei...) designado pela prefeitura até que as novas moradias fiquem prontas (com que dinheiro, em que prazo, em que terreno?)
- ou bônus moradia, onde a prefeitura liberaria um financiamento até R$ 52mil (= valor Minha Casa Minha vida) pra financiar um imóvel. (Perceba: a pessoa JÁ TEM CASA. Pra ela abandonar a casa, arranjam uma dívida pra ela!!)

“A casa de passagem é um abuso. É um imóvel de 4x3m em que muitas vezes eles colocam uma família de dez pessoas durante dois anos"

E alguém se pergunta onde estas pessoas vão parar? Não serão aquelas que a gente vê dormindo embaixo de marquise e finge que não viu?


O centro Cenotécnico do Estado, que fica em Porto Alegre, fundado em março de 1995, é o único centro cenotécnico público da América Latina, referência para as Artes Cênicas do Rio Grande do Sul, possui 1300 metros quadrados de área total.
Lá são construídos cenários para teatro, cinema, televisão. Lá muito espetáculo é ensaiado. Lá são guardados muitos cenários. É muito usado como set de filmagem. Lá é produzida muita coisa pra carnaval e publicidade.
Lá são apresentados espetáculos nacionais e internacionais.

Depois de mobilização da classe artística - a mesma que 'a galera' não sabe que existe a menos que apareça na TV - muita reunião aconteceu, manifestação no plenário da câmara de vereadores ficou decidido que o Governo do Estado cederia um espaço próximo ao original e que parte da construção original seria mantida. 
Pelas fotos da região as obras "da Copa" vão de vento em popa. Nenhum mato foi removido do chão onde deveria existir o novo centro cenotécnico.

Donos de bancas de revistas, que trabalham o ano todo - pois não se podem dar o luxo de tirar férias, fechar a banca e perder o acordo de distribuição de revistas e outros periódicos - e pagaram pela estrutura e manutenção de suas bancas foram obrigados a COMPRAR as bancas padrão FIFA sob pena de perderem suas licenças de trabalho.

A rede hoteleira foi forçada a aceitar regras da FIFA, sob pena de "vocês não querem ficar fora copa, né? Assim teremos que deixar seus nomes e endereços fora das recomendações em nosso site e aos nossos negociadores turísticos em outros países". Essa EU OUVI de um representante da empresa-braço-mercadológico da FIFA em reunião com hoteleiros em Porto Alegre em 2011, ordenando regras aos empresários.


O prefeito de Porto Alegre, infeliz em muitas coisas que faz e diz, pronunciou uma das pérolas que ficarão nos ANAIS da história de Porto Alegre. 
"As pessoas não usam as árvores" disse ele, justificando o corte indiscriminado de árvores em função 'das obras da Copa' numa cidade onde foram presos os secretários estadual e municipal do Meio ambiente! VEJA vídeo


NOS HOSPITAIS, ah, os hospitais que o Ronaldo despreza!, tive alguns amigos e familiares internados durante um bom tempo, mas há mais de 3 anos eu não entrava, de verdade, nos hospitais de Porto Alegre - por ter morado um tempo em SP e não ter tido necessidade. Mas em função do estado de saúde do meu pai - que tem plano pelo IPE/RS tenho vivido e presenciado situações que são de gritar e chorar de raiva.
Poderia contar durante horas tudo que temos vivido mas vou citar a mais hilária e recente história. 
Pouco antes de uma sessão de quimioterapia no hospital MOINHOS DE VENTO (sim, esse mesmo, onde fica inclusive nosso querido Luis Fernando Veríssimo)  há algumas semanas, meu pai precisou ser encaminhado para a emergência. Ele faz quimioterapia lá principalmente por ser mais perto de casa. Ele foi colocado numa maca e logo veio uma técnica em enfermagem medir pressão, temperatura e tal. Aos poucos fui percebendo que o corredor onde estávamos era justamente onde ele seria atendido. Várias macas alinhadas e na parede uma placa: CORREDOR. E ao lado de cada maca, um número 1, 2, 3... Sim, os leitos estão no corredor do hospital privado que atende convênios e ponto. logo ao lado da porta - pra rua - por onde entram pacientes trazidos por ambulâncias de acidentes de carro, por exemplo e passam colados a nós aos atropelos.
Pediram pra eu ir na recepção e ao longo do corredor mais estreito estavam enfileiradas cadeiras de roda onde estavam idosos com seus soros e medicamentos pendurados. Um na frente do outro, estacionados ao longo da parede do corredor. Alguns até no canto, de frente pra outra parede.
Cheguei na recepção - lotadíssima - e me chamaram ao telefone. Era a enfermeira que levou meu pai até ali avisando que a emergência no hospital não era cadastrada pelo IPE e querendo saber se faríamos o atendimento particular. Confirmei com meu pai e falamos que se ele tivesse que internar, iríamos pra Sta Casa. 
Tudo que foi feito foi eu assinar o papel. Então vieram 4 ou 5 vezes junto a maca saber se iríamos mesmo pagar o atendimento e lá pelas tantas, eu já irritada fui atrás do médico. Ele disse que estava vendo com a Sta Casa se tinha lugar na emergência (que lógico, estava superlotada) pra poder mandar meu pai pra lá. Como não tinham feito  NADA, eu falei que tinha chamado uma pessoa com carro pra levarmos ele embora. E me explicaram que antes de eu assinar eu podia ter feito isso, mas depois, era ANTI ÉTICO o médico liberar pois ele seria responsável. Uma ambulância demoraria até 4 horas pra chegar e custaria 400 reais pra um percurso que costumo fazer a pé de tão perto.
Perguntei pro médico se ele sabia onde eu queria que ele enfiasse a ética dele e tiramos meu pai de lá com alguém no encalço perguntando quem pagaria o atendimento!!!!! Voltamos pra pagar e não sabiam o que deveria ser cobrado. Demoraram tanto que até o porteiro falou: ah, vão embora, cuidem dele.
Fomos.
E esta semana chegou uma fatura cobrando 200 reais POR UM ATENDIMENTO QUE NÃO FOI FEITO!!! hahahahahahahhahahahahahhaha

Mesmo na Sta Casa, onde os profissionais se esmeram pra fazer o melhor que podem, faltam remédios que temos que comprar na farmácia, dão remédios errado, perderam meu pai no complexo após uma cirurgia e - quando não poderia sequer beber água - deixaram-no sem soro (por esquecimento) durante 4 dias e ele gritava de fome!! Fomos nós que finalmente percebemos que ele deveria ter soro, pois nenhum médico ou enfermeiro tinha notado!
Tive que levar um T (benjamin, aquele adaptador pra tomada) pra fazerem um eletrocardiograma pois o aparelho é antigo e as tomadas são novas, trocadas por exigências como sabemos da "nova legislação". 
Exames são feitos durante 24h pois não há profissionais ou equipamentos suficientes pra atender a demanda. Então meu pai já foi no frio, fazer exame às 3h da manhã. Na última internação, 'esqueceram' uma parta do procedimento preparatório pro exame que incluía 8h de jejum. ele teve que ficar 16h sem comer ou beber por causa disso.
E TUDO ISSO POR QUE ELE PAGA O MELHOR PLANO DO IPE HÁ MAIS DE 50 ANOS!!!


Quem já passou pelos corredores do SUS sabe que é de rasgar o coração, que dá vontade de gritar a arrebentar a tapa de quem rouba dinheiro nesse país.

E TEM AINDA QUEM NÃO ENTENDE QUE ESTAMOS CANSADOS??

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Debate

Os debates promovidos pelo SATED/RS com os candidatos à prefeitura de Porto Alegre estão cumprindo sua função. Com foco nas políticas culturais, o evento demonstra exatamente quem é e como pensa cada candidato. Entre um que chama os artistas de "chatos" e outro que concorda com a desvalorização dos profissionais locais frente a outros "de fora", mais e mais pessoas comentam após os debates a intenção de anular o voto. Pode parecer que eu fique alegre com isso, mas apenas me surpreende e angustia.
Aos candidatos não-eleitos fica a dica: não tentem trabalho como ator, vocês não tem tanto talento quanto poderia parecer, pois atuar não é mentir. Mas talvez façam carreira ministrando cursos de como falar por 5 minutos sem responder diretamente a nenhum questionamento.

Os encontros são abertos à toda população, aproveite pra conhecer um pouco mais sobre como pensa o "seu"candidato. Veja programação aqui.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Centro Cenotécnico do Estado. Reunião na Câmara de Vereadores.

Mais do que a necessidade de artistas - como poderia parecer a um desavisado que assistisse à reunião hoje na Câmara de Vereadores, a manutenção do espaço do Centro Cenotécnico do Estado em Porto Alegre, que serve a diversos municípios, é vital para a continuação de diversas atividades culturais que movem várias cadeias produtivas no Estado do Rio Grande do Sul.

Após 30 minutos ouvindo a arquiteta da prefeitura explicar o que todos sabemos, da dificuldade de locomoção em Porto Alegre (até agora não havia recursos e então, surgem num passe de mágica) e onde ficarão os semáforos na região, todos tiveram oportunidade de se pronunciar. Esqueceu de falar tal profissional sobre por que até hoje não se estabeleceu a linha do aeromóvel parada em frente à Câmara de Vereadores que, com energia limpa, poderia colaborar – e muito! – no deslocamento da população via Av. Ipiranga e zona sul, por exemplo. Palmas ao Presidente do SATED/RS, falando por diversas entidades e ao Diretor do Instituto Estadual de Artes Cênicas que com calma e com conhecimento de todo o tema, sem hesitação falaram da importância de uma solução que atenda à necessidade de todos.

O desrespeito começa pela falta de comunicação. Prefeitura com planejamento de obras em mãos há mais de 2 anos, a comunidade artística de vários segmentos que trabalham no espaço foi surpreendida junto com a Secretaria Estadual de Cultura por uma notícia de jornal dando conta da desapropriação em poucos dias!!
O descaso da Prefeitura Municipal de Porto Alegre com sua cultura começa no estado lamentável de seus aparelhos públicos (teatros com princípio de incêndio, equipamento sucateado, teto caindo, palco onde ao pisar abrem-se buracos), seus gestores e a participação no orçamento municipal que não chega a 0,1% do total. Sendo que do montante, a maior parte é destinada a apenas uma manifestação cultural (não própria, mas apropriada). Herança de outros governos? Sim, mas o atual nada faz em contrário, visto outros temas parados ad eternum por meses e até anos, como Funcultura e Cia de Arte.

Não é necessário um grande pensar para sabermos da importância de preservação da história, da cultura de um povo - que se pretende tão politizado - para crescimento efetivo da população. “Povo que não tem virtude, acaba por ser escravo” enchem a boca para cantar. Que virtude há em aniquilar a capacidade de pensar das pessoas? A escravidão de que se trata aqui é a de acatar tudo sem ter parte nas decisões, sem ter sido ensinado a pensar. E não é apenas através do voto, como gostam de alardear alguns.

Enquanto Medellín na Colômbia aplica 40% de seus recursos em cultura e educação e é eficaz no combate ao narcotráfico, seguimos na contramão da história? Há muito sabe-se que os segmentos de artes, cultura, arquitetura, moda e design são os mais promissores economicamente, por dependerem de recursos intangíveis como conhecimento e educação formal. Já está criada toda uma geração de analfabetos funcionais que terminam a escola sem saber escrever uma frase correta ou uma conta simples por não ser permitido mais 'repetir de ano'. Com a aniquilação da formação cultural completa-se o ciclo de ‘emburrecimento’ e dominação, controle, como queiram chamar. É mais barato e fácil que manter uma ditadura, pois agora o inimigo é invisível.

"A arma mais poderosa nas mãos do opressor é a mente do oprimido" (Steve Biko)

Mas voltemos ao ponto nevrálgico pelo qual lutamos no momento. O Centro Cenotécnico do Estado, abandonado por diversas gestões finalmente estava recebendo a atenção devida do instituto Estadual de Artes Cênicas. Prédio em péssimas condições abriga confecção de cenários para diversos eventos no estado, espetáculos, cinema. Nas antigas instalações da RFFSA, abriga cenários que precisam ser guardados entre uma apresentação e outra ou que podem ser reaproveitados ao invés de apenas descartados, colaborando para a sustentabilidade apregoada por gestores públicos como bandeira para ‘inglês ver’. Abriga projetos em desenvolvimento por estado e municípios, recebe apresentações como as programadas pela próxima edição do festival Porto Alegre em Cena – hoje realizada pela própria prefeitura que quer derrubar o espaço. É espaço para ensaios, manutenção de materiais, é usado como set de filmagem para cinema e nele são ministrados cursos e oficinas de formação de diversos profissionais. Como lembrou o presidente do SATED/RS, Vinícius Cáurio, patrimônio histórico e cultural é muito mais que um prédio tombado.

Para 2013 estava programado o início das obras de recuperação física do lugar, com recursos já captados e projetos artísticos em andamento.
Talvez esqueça-se o poder público que não é para os artistas como querem fazer crer, mas para toda a população, para que possamos continuar a divulgar a cultura do estado – que hoje se apresenta em vários lugares do Brasil e no exterior. Não é para um grupo de artistas e técnicos, pois se temos neste ofício nosso sustento, é porque existe um público que vai a cinema e adora ver suas referências pessoais ali retratadas, que acompanha o Natal Luz, que gosta de carnaval, música, teatro. Público não apenas da cidade e do Estado, mas também formado por turistas que acompanham diversos eventos ao longo do ano.

Talvez esqueça-se o poder público que a classe artística existe, como ele, do povo e para o povo e não estamos guardados em um armário para uso conforme necessidade, para construir e subir em palanques de comício, oferecendo grandes eventos para encher e distrair os olhos dos menos atentos. Mesmo que assim fosse, onde pensam estes ‘gestores’ que tais técnicos e artistas aprenderiam o ofício e poderiam executá-lo? Não somos um aplicativo que pode ficar num canto da memória e acessado apenas quando convém.

Saímos apreensivos da reunião extraordinária com a comissão de cultura da Câmara de Vereadores de Porto Alegre com entidades e instituições envolvidas, SEDAC-RS e Secretaria de Obras do Município. De um lado o governo municipal afirma que nada será demolido até uma solução completa; pede que o governo do Estado ofereça outro imóvel (enquanto a prefeitura cede imóveis públicos a iniciativa privada) e oferece como alternativa demolir parcialmente o prédio e construir um ‘anexo’ aos galpões preservados. Um olhar mais atento sabe que, devido ao desleixo histórico, corre-se o risco de, demolindo uma parte, outras desabem. E não é necessário profissional da secretaria para saber isso – quem sabe não seja este o intento?, poderiam supor alguns. Lembrando que promessas feitas nem sempre são cumpridas, corremos o risco de ficar sem aquele espaço vital para a cultura do estado.

É necessário também que esta mesma classe, já tantas vezes atingida, lembre-se de que o trabalho é ininterrupto no sentido de preservar o pouco que temos. E toda presença, divulgação, esclarecimento público se faz necessário e urgente.
Abaixo, o exemplo de mobilização dos moradores de vilas atingidas na zona sul da capital. Depois de tudo perdido, de nada adianta chorar sobre o prédio derrubado.

PARIS SÓ É PARIS POR SUAS CABEÇAS PENSANTES E NÃO POR SUAS OBRAS VIÁRIAS, nos lembra Marcelo Restori, ator, diretor de teatro e cinema e hoje diretor do IEACen.