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quinta-feira, 29 de março de 2018

Tenho direito a profissão!


“Numa democracia constitucional não cabe ao estado policiar a arte”.
A partir desta frase poderíamos lembrar questões recentes de censura às artes no país e até pensar que foi proferida por pessoa desavisada, sem conhecimento da atual onda de cerceamento que lava despudoradamente o Brasil de ponta a ponta. Mas foi proferida por quem acredita estar defendendo direitos enquanto empurra centenas de milhares de pessoas à informalidade e legando o público às mãos ineptas de supostos técnicos.
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A situação de que tratamos aqui é a Arguição de Descumprimento de Preceito fundamental (ADPF) n. 293, que pretende, grosso modo, retirar o direito de artistas cênicos e técnicos - entre outros - serem reconhecidos como profissionais.
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A alegação de que a Lei restringe o exercício de atividade artística é estapafúrdia pelo erro de interpretação que carrega. A Lei 6533/78 (e decreto 82385/78 que a regulamenta) que reconheceu como profissão o técnico e o artista cênico em nenhum momento coíbe o livre fazer artístico, ela visa regular o exercício da profissão que, por definição, é uma atividade especializada. Assim, profissional é quem adquiriu em fontes variadas e seguras o conhecimento da atividade que realiza. Pode qualquer pessoa criar e executar um cenário e garantir que ele não cairá sobre elenco e plateia ou incendiará em contato com um refletor?  Ainda mais grave é a arguição quando sugere ser desnecessária a exigência de registro do profissional técnico em benefício do interesse público. Desconhecerá responsabilidades em situações como a tragédia da casa noturna Kiss em Santa Maria no Rio Grande do Sul? O técnico é o responsável pelas instalações de som, vídeo e luz e sua operação. Pode-se admitir que pessoa não qualificada assuma os riscos que somente um técnico profissional conhece ao lidar com eletricidade ou trabalho em altura? Como saber se este amante da arte adquiriu conhecimento suficiente para dar aulas ou responder questões técnicas de segurança? COM O REGISTRO PROFISSIONAL.

A Lei é clara: são aceitos além de diplomas acadêmicos ou atestado de capacitação profissional. Para este atestado, o aspirante a um registro profissional leva na entidade representativa de categoria do estado onde reside todo o material que comprove sua atividade. De maneira geral são aceitos certificados e comprovações de cursos e profissionais com quem tenha trabalhado. Por ser a obtenção de atestado de capacitação uma prática tão simples, fica a dúvida de a que interesses serve a extinção de nossa profissão, por que é disso que se trata, em resumo.  
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Certamente não são os interesses da liberdade de expressão ou de quem trabalha em várias frentes, do ensino de técnicas artísticas ao labor exaustivo dos ensaios ou aos interesses de quem realmente zela pela segurança de público e trabalhadores em espetáculos de diversões.
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Num momento extremamente delicado nas relações profissionais, políticas, econômicas no país, a que serve este tipo de discussão inócua que pretende tirar direitos ao invés de defendê-los? Se realmente o estado não pode policiar a arte, pode ele arbitrar o desvalor de profissionais com responsabilidades éticas e técnicas reconhecidas por um registro cuja inexistência não trará benefício social algum, considerando desnecessário seu reconhecimento legal? Justamente não estará o Estado legando centenas de milhares de profissionais à informalidade de subempregos leiloados a “quem ganha menos” em benefício unicamente de contratantes que visam aumentar seus lucros reduzindo custos de produção ou, como é prática comum, oferecendo comida e transporte em troca do trabalho artístico que hoje é sustento de tantas famílias?

sábado, 27 de janeiro de 2018

braziu

Nasci juntinho com o AI-5.
Cresci sob a ameaça constante de, no caso de falar algo 'indevido', ter meus pais presos e minha irmã e eu sermos enviadas a um orfanato - ou pior! Uma vez vez cheguei em casa cantarolando trecho de música que ouvira na rua. "...caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento...".
Imediatamente minha mãe me disse pra ficar quieta, fechou uma janela, me segurou pelos braços e disse, nervosa: "quer que teu pai seja preso?", NUNCA MAIS CANTA ESSA MÚSICA!"

E assim calei-me.
Nunca esqueci o medo de andar na rua e ver um capacete branco. Nunca esqueci os olhos de minha mãe naquele dia.

As pessoas que hoje tem toda a liberdade de falar TUDO que querem, inclusive ofensas e mentiras, clamando por novo governo ditatorial, nada sabem realmente sobre este medo. Riem, incrédulos, quando essa sombra se avizinha, acreditando que ditaduras se estabelecem apenas por força de armas. Servos voluntários pelo hábito, covardia ou participação (perversa) na tirania, acreditam-se detentores de uma verdade única, fechando olhos e ouvidos a quem ousa pensar diferente e à verdade de que todo um sistema corrupto precisa ser limpo desde a população e seus representantes, não sendo a condenação de um único homem a redenção de um lugar que nunca foi planejado para ser nação.

Lamentavelmente, somos arrastados por não-inocentes úteis ao poço que lhes é oferecido como salvação de algo que nem sabem o que é, mas, de que DIZEM SER O MAL.

Ler: http://br.rfi.fr/brasil/20180127-brasil-uma-democracia-em-decadencia
http://www.esdc.com.br/CSF/artigo_2007_11_Boetie.htm

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O Retorno

Há muito tempo me abstenho de me envolver com política partidária, seja em discussões ou diretamente. Por motivos que me levaram, inclusive, a anular meu voto durante muito tempo, consciente do que isso significa.
Porém é impossível abster-me totalmente, já que vivo inserida em sociedade, tudo que sou e faço dependem, diretamente, da política entre seres humanos, partidária ou não.

Sempre entendi que a variação de ideias é saudável para que a gente possa conhecer pessoas e seu trabalho, ver o que funciona, o que pode ser agregado ou removido. Afinal, pressupor que apenas aquilo em que acreditamos é correto sempre me pareceu burrice.

Certa vez comentei que achava interessante a forma como o voto das pessoas que vivem no Rio Grande do Sul pode facilmente, sem medo, migrar “de lado”, quando não satisfeito. Votar no outro lado quando achava que tava na hora de mudar.

Mas no panorama atual de candidatos, fico estarrecida com a possibilidade dessa senhora Ana Amélia vir a ser governadora do Estado. Alguém aqui lembra da Ieda? Dá uma piorada pra ter noção...

Imaginem, nas artes e na cultura, área em que trabalho - que vinha sendo reconstruída com muita dificuldade e briga no estado (vamos sair do umbigo da capital, certo?) – um governo que não tem a menor ideia do que é produzido aqui? Quem teve oportunidade de ouvir a representante da candidata sobre o tema, nem precisou de esforço para entender que ela não sabe do que está falando. Provavelmente por não acompanhar a produção artística regional. O que se dará então, na educação, na saúde? 
Mas se lutamos por participação e verbas diretas (como fundos e editais), não podemos esquecer que este seria o tipo de governo a financiar apenas manifestações folclóricas e Bailes de Debutantes – estão esquecidos?

Não posso compactuar com isso.

Este ano, eu voltarei a votar.

Aconselho a todos que ponham a mão na consciência: se está como está, não é responsabilidade nossa que votamos de forma displicente? Com bem lembra a campanha do TSE, será como se o candidato ande sempre com você, fazendo passar vergonha, trabalho, dificuldade. Tire uns minutos para pesquisar rapidamente sobre o programa de governo do candidato. É mentira? Bem, você deve saber em quem está votando. Pesquise, informe-se, tenha memória e consciência!

sexta-feira, 21 de março de 2014

MANIFESTO DOS ARTISTAS GAÚCHOS

O COLETIVO DE PROFISSIONAIS DAS ARTES CÊNICAS ATRAVÉS DO “CONVERSAS ABERTAS”, PROMOVIDO PELO SATED/RS (SINDICATO DOS ARTISTAS), VEM A PÚBLICO MANIFESTAR SUA POSIÇÃO EM RELAÇÃO À QUESTÃO CULTURAL NO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL.

A cultura de um povo é sua identidade. É o que diz quem esse povo é, como pensa, age, fala, come, trabalha, nasce, cria vida, se diverte e faz arte.

O povo do Rio Grande do Sul que estufa o peito para falar de seus feitos passados, não luta pela valorização de sua arte, pelo seu direito à educação e à saúde através da cultura, que está sendo desmontada dia a dia pela falta de interesse em incentivar e apoiar a produção local.

A arte é um caminho para evolução do ser humano, tornando-o mais sensível para que ele aprenda a pensar e agir por SUAS ideias e conclusões.

É necessário que artistas e população tenham espaços democráticos, de fácil acesso e com infraestrutura adequada. É necessário que o público e os artistas levantem suas vozes para que as autoridades cumpram seu dever de servir ao povo.

A situação atual da Cultura no Estado é devastadora, não há políticas culturais efetivas e permanentes. O estado geral dos espaços públicos de cultura é uma afronta à população. Há muito a classe aceita uma condição indigna para poder fazer sua arte, mas agora levanta-se para exigir mudanças - precisamos de soluções reais e efetivas através de:

- políticas públicas eficazes e transparentes para a cultura e a arte;
- acesso real de grupos locais a TODOS os espaços culturais do Estado e Municípios;
- aprovação da PEC 150, pela Câmara Federal;
- manutenção adequada e permanente de espaços físicos e equipamentos públicos de cultura;
- abertura de vagas e concurso público e qualificação para técnicos em teatros públicos;
- aumento de financiamentos e editais públicos de fomento e pesquisa artística local;
- promoção da circulação de espetáculos regionais dentro do Estado e Municípios do RS.

Queremos fazer arte dignamente.

EXIGIMOS CONDIÇÕES DE TRABALHO.


Rio Grande do Sul, março de 2014.


sábado, 17 de dezembro de 2011

Vamos ao que interessa?

Acabou o mimimi dos prêmios de teatro em Porto Alegre? Vamos a assuntos mais sérios? 
Bombeiros e MP na usina e sambódromo. Quando é que eles vão no Renascença e no Câmara - sem falar na CCMQ olhar a situação periclitante das salas onde técnicos precisam trabalhar, se arriscando com o público a incêndios e acidentes pelo estado do equipamento?  
 Teremos que chamar o Chapolim colorado? Quem poderá nos salvar? Por que não vejo saída pra situação. Talvez quando a PMPA não puder realizar o em Cena por falta de espaços minimamente utilizáveis a população se junte à classe exigindo atenção devida. 
Que tempo é este em que as pessoas só pensam em se locupletar às custas dos outros? Se há responsáveis, que sejam responsabilizados. Criminalmente até, se houver incidentes. O que não pode continuar é esse desleixo total numa cidade que se incomoda tanto em sediar copa do mundo de futebol quando não tem estrutura; e não se enganem: a situação dos teatros é apenas a ponta do iceberg.
Trabalhadores da área artitica impedidos de reaver seu material de trabalho por que um espaço como Usina do Gasômetro está fechada por determinação judicial. Ainda que isso nos atrapalhe e muito, acho digno que finalmente se coloque luz sobre o assunto e se apure responsabilidades. A população de Porto Alegre tem o direito de saber o que está acontecendo. 
Descaso, desleixo, falta de vontade, morosidade. Equipamentos públicos atirados às traças. Funcionários da prefeitura, artistas e público desrespeitados. 
LEMBREMOS DISSO EM TEMPOS DE ELEIÇÃO!! Muitos desses que aí estão pretendem ficar ou voltar. E nós? Ficaremos calados??

domingo, 23 de agosto de 2009

A clareza de Boal.

Todo teatro é necessariamente político, porque políticas são todas as atividades do homem, e o teatro é uma delas. Os que pretendem separar o teatro da política, pretendem conduzir-nos ao erro – e esta é uma atitude política. Teatro é uma arma muito eficiente. Por isso, é necessário lutar por ele. Por isso, as classes dominantes permanentemente tentam apropriar-se do teatro e utilizá-lo como instrumento de dominação. Ao fazê-lo, modificam o próprio conceito de que seja o “teatro”. Mas o teatro pode igualmente ser uma arma de liberação. Para isso é necessário criar as formas teatrais correspondentes. É necessário transformar. (Augusto Boal) – Trecho do livro Teatro do Oprimido e Outras Poéticas Políticas - Explicação