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domingo, 22 de março de 2020

Diário da 'Quarentena' - 22 de março



Desde ontem há uma grande campanha de alerta sobre estes dais de contágio que culminarão no pico de doentes em abril/maio. Juntei-me a esta corrente de informação, pesquisando, informando, alertando.

As tarefas de hoje incluíam passagem pelo bairro Mathias Velho em Canoas e, em Porto Alegre, 3 paradas me fizeram passar pelo bairros Santa Cecília, Petrópolis, Jardim Botânico, Tristeza, Partenon, Nonoai, Cavalhada e tudo que estivesse nesse caminho.

Na “orla” pessoas caminhando, brincando com crianças, ciclistas em suas montarias caras, idosos sentados nos bancos,  alguns só de bermuda, encostados em superfícies que sabe-se lá quem encostou ali... Já deveria haver um cuidado em ‘’tempos normais’. Imagina agora. Pior é que não ouvem autoridades municipais e estaduais e agem como se fossem imunes a qualquer doença.
Por pura observação pelos lugares onde passei, os bairros de residências mais humildes eram o que estavam vazios. Talvez por que saibam da dificuldade de acesso ao sistema de saúde em dias comuns e tenham consciência do problema que é estar doente. Nos bairros mais classe média e alta, gente na rua, caminhando, bicicletando com crianças. Não o número de pessoas que estaria em um domingo comum de sol, mas ainda assim, havia gente na rua.

Já que a república federativa está à deriva, os executivos municipal e estadual não poderiam pedir tempo nos veículos de comunicação dentro de programas jornalísticos e fazer um alerta e divulgar diretamente à população as medidas tomadas e suas razões?

MUITA GENTE AINDA NÃO ENTENDEU!!

sábado, 21 de março de 2020

21 de março, última saída do dia



Faço compras em feiras e atacados, de modo geral. Mas vizinhos idosos costumam pegar poucas coisas no ‘super’ que tá ali, logo do lado. Gaúcho adoooora um mercado.
Quando comecei a aprender a dirigir carro, minha mãe dizia que o maior problema eram “os outros”. Sem saber, tava me ensinando direção defensiva.
Cheguei no mercado com uma lista da vizinha – local mas cheio do que eu gostaria – paramentada no meu EPI,  tentava manter distância, deixava as pessoas passarem e tal. Fui pesar frutas, as pessoas grudadas na fila.

Ouço alguém perto dizer: “parece que a gente tá um filme”. Não dei bola. Então sinto uma tosse no meu pescoço. Viro a cabeça e duas mulheres estão literalmente coladas em mim. Não havia nem 5 cm entre a gente. Perguntei através da máscara (estou com tosse que deve ser alérgica de novo, mas na dúvida, protejo os outros) “tu tá te cuidando?” . Era visível que não há nenhum cuidado ali. Ela ri e diz “aham” de forma debochada. Chego, entrego as compras, lembro a eles que precisam limpar as embalagens, entro, começo o meu ritual de limpeza pós rua, entro no banho e me esfrego da cabeça aos pés.
Caminho pela rua pensando quantas daquelas pessoas eu verei de novo.

DIÁRIO DA QUARENTENA. 21 DE MARÇO


Ainda está escuro quando o despertador toca. Bocejando vou ao banheiro. Na volta, pensando na roupa incluo os itens de EPI que estou usando: luvas, máscara e avental descartável.
Paro um instante. Penso que estou lembrando de algum filme que tivesse visto na noite anterior. Sabe quando a gente acorda no meio de um sonho e confunde os dois momentos? Pois é. Só que é de verdade.
Não me desespero, ainda falho no meio do protocolo de higiene que instaurei em casa. Pego o carro, começo a rodar. Ainda está amanhecendo quando vejo abnegadas trabalhadoras de um hospital caminhando, atravessando a rua olhando para os lados – cuidando quem fura o sinal vermelho e eventual agressor na rua? Percebo que aos poucos elas vão trilhando a mesma rota. Unidas, mas distantes. São elas, entre tantos outros, que vão se arriscar e cuidar daqueles que não se cuidaram debochando da gravidade do tema. A ignorância é uma merda...

Mais tarde, na feira, toda paramentada, vejo pessoas que sequer sabiam e reclamavam de não poder tocar nas frutas. Encontro um conhecido de rua desses que nem sabemos o nome, entende? Pergunto como está se protegendo, recomendo pelo menos usar luvas. Ele me responde: fotos? Jornal, TV? Tudo falso! Só acredito mesmo por que minha irmã mora na Itália e me conta. Por um segundo eu tento sorrir pois não haveria diálogo. Desisto e ele não veria, estou de máscara. Me despeço, sigo.

Esperando minha vez para a entrada improvisada em frente a uma barraca, uso o tempo para pensar, organizar ideias. Um senhor cuja esposa estava na banca, puxa assunto que vem ao encontro do que eu pensava. Sobre paciência. Tantas vezes pedi por paciência e veio algo que, de uma vez por todas, vai me ensinar sobre a arte da paciência. Já está ensinando. Percebi que é mais fácil do que eu imaginava. Não sei por que perdi tanto tempo.  Lembro da outra semana, quando passei 3 vezes pela mesma banca cheia esperando ter mais espaço para comprar o que precisava. Pacientemente eu fiz as voltas e, como de costume, esperava alguém se afastar para puxar o carrinho e ‘me servir’. Agora a paciência precisa ser ainda maior. Mais que paciência. Resiliência, empatia, vindas pela mão da sabedoria.

Usei avental descartável, mas os sábios organizadores abriram uma grande distância, entre outras providências, ampliando o ‘corredor. Também havia menos gente. Menos bancas. Não encontrei tudo que precisava.
Tenho lembrado muito de relatos ouvidos ou lidos de quem viveu em guerras. Algumas situações pontuais pelo país fizeram esse papel, mas não somos um povo que costuma ter memória, valorizar o aprendizado que advém dela. Cada vez mais isso fica claro. Lembro de um professor de italiano que, nos ensinando uma receita em aula, abriu um ovo e, com o dedo, tirou bem a clara que havia restado. Percebendo olhares de duas pessoas, ele virou e disse: na fome, a gente aprende a aproveitar tudo que existe hoje, pois não sabe se terá amanhã. Isso serve para tudo.

Fiquei pensando na última vez que abracei alguém. Talvez eu fique alguns meses sem dar a mão a alguém. Pelo menos ainda posso afofar muito o Perdido (os meliantes ficarei um tempo sem ver) que vai pouco na rua e quando volta, passa por higienização do focinho ao rabo. A gente achava que o ano 2000 seria uma marca. Mas o portal que pode fazer a diferença é agora. Quando teremos outra chance assim de evoluir como espécie?